9.11.09

Tamara Andrade: O Mergulhador


“Mergulhador” é o título de uma instalação composta de uma série de desenhos gravados em placas de vidro, montados sobre estruturas de metal e distribuídos pelo espaço expositivo do 2° andar da galeria.

O título da exposição remete às imagens gravadas nos vidros, mas também à postura necessária ao espectador para olhar os trabalhos: as peças estão expostas a poucos centímetros do chão, e os desenhos parecem misturar-se a ele.

A ausência da figura humana foi uma característica importante dos trabalhos anteriores. Entre 2003 e 2006, abstendo-se de apresentá-la, os desenhos bordados em branco e preto priorizavam a estrutura material do ambiente familiar, levantando dúvidas em relação à ordem das coisas.

Neste sentido esta exposição é um aprofundamento, um deslocamento do olhar visando aproximá-lo ainda mais do contexto doméstico, permitindo encontrar nele o corpo humano, o lugar onde habita o espírito.

O corpo está apresentado ao mesmo tempo como estrutura única e em partes, para dispor em imagem a noção de que ele é também um ambiente líquido, sujeito a mudanças, ciclos, fluxos, humores.

Os cientistas classificam o vidro como um sólido amorfo, algo como um sólido quase líquido, um meio-termo entre esses dois estados físicos. Por tal imprecisão, e do mesmo modo como é imprecisa a representação da água, este pareceu ser o material ideal para receber o mergulhador e aproximá-lo do espaço expositivo.

A transparência do vidro presta-se a ligar as imagens ao ambiente da exposição. As imagens mergulham na opacidade do chão ao mesmo tempo em que se descolam dele. No desenho em si, a transparência assume outra função, a de revelar ossos ou órgãos, subvertendo a ordem das camadas abaixo da pele.

É possível traçar paralelos com algumas fontes históricas, como os desenhos de estruturas de Marcel Duchamp, os estudos de anatomia de Leonardo da Vinci, com as fragmentações de imagens muito recorrentes na série de fotografias de piscinas de David Hockney, com a obra Gambling, de Ana Maria Tavares e até mesmo com alguns registros fotográficos dos trabalhos de Dan Graham.

(texto: Galeria Baró Cruz)

“O mergulhador”
individual de Tamara Andrade
inauguração: 14 de novembro de 2009 das 11:00 as 17:00
exposição: 16 de novembro a 16 de dezembro de 2009
terça as sexta-feira das 11:00 das 19:00 / sábados as 11:00 as 17:00
Clodomiro Amazonas, 526. Itaim Bibi São Paulo SP
11 3167.0830
www.barocruz.com

6.11.09

Outros Retratos

Entre os anos de 2002 e 2004 mantive ativas contas no Multiply no Fotolog–plataformas para compartilhamento de imagens e textos através de websites–, onde publicava sobretudo manipulações digitais de imagens provenientes da própria www – ou seja, com restrições à publicação– e, eventualmente, textos, os quais me possibilitavam estabelecer contatos e diálogos. As imediações em que circulava no Fotolog sempre me pareceram insatisfatórias: uma vizinhança marcada por uma cultura da noite, da diversão e do narcisismo, da (auto)celebração e dos remédios que fazem dormir. Já as redondezas do Multiply produziram experiências memoráveis, com atualizações rápidas e bastante interativas. Lembro-me de um contato que realizou uma ação que consistiu em fotografar-se o mais exatamente possível como se apresentavam os seus contatos mais próximos, eu inclusive, em seus respectivos avatares. Durante algumas horas, alternou várias vezes o seu próprio avatar em que aparecia sucessivamente como um destes seus contatos. A ação rendeu vários comentários e um certo frisson.
Algumas das imagens publicadas no Fotolog entre 2002 e 2004.

Algumas das imagens publicadas no Multiply entre 2002 e 2004.

Em fins de 2004, comecei a desativar estas duas contas porque me parecia que a atividade nestes websites havia diminuído consideravelmente, e, por sugestão e convite de um amigo, iniciei uma atividade no Flickr –uma plataforma para compartilhamento de imagens através de website. Muito à deriva, os primeiros passeios pela minha vizinhança me apresentaram um território habitado por usuários dedicados, de diversas maneiras, ao autorretrato. À medida que ia estabelecendo contatos, passei a ser convidado a integrar grupos temáticos, também muito variados, relacionados ao autorretrato e a imagens abordando o corpo, partes corporais, nudez masculina, homoerotismo e pornografia. Estes contatos e grupos centrados na postagem de imagens desta natureza tinham objetivos bastantes difusos, oscilando desde a exploração do nu artístico, passando pela simples provocação ou brincadeira, até a busca de parceiros para sexo remoto ou para encontros no mundo externo à www.

Ao invés de repostar as imagens que já haviam figurado no Fotolog e no Multiply, ou de dar prosseguimento a estas séries, iniciei um primeiro trabalho que buscava uma sintonia com a minha vizinhança na rede. Produzi, então, algumas imagens fotográficas digitais tendo meu corpo como objeto e comecei a publicar suas versões alteradas por meio do uso de editor de imagens. De início, compartilhei este trabalho apenas com meus contatos mais próximos ou com grupos específicos, ou seja, contatos distantes, não-contatos e usuários não vinculados ao Flickr não tinham acesso a ele. Ao mesmo tempo, prossegui pesquisando as imagens publicadas no site buscando apreender as variadas maneiras pelas quais o objeto que começava a trabalhar era apresentado pelos diferentes usuários do website.
Imagens da primeira série publicada no Flickr.

Em 2005, iniciei um segundo trabalho, de alguma forma proveniente dos autorretratos, centrado na utilização das ferramentas dos softwares gráficos para a produção das imagens –a transposição dos procedimentos do desenho, da pintura e da ilustração para o ambiente digital, mas por vezes utilizando fragmentos de imagens de origem fotográfica. Continuei abordando neste trabalho objetos relacionados ao corpo nu, genitais e, de alguma forma, ao homoerotismo. Diferentemente do anterior, publiquei este trabalho sem restrições ao acesso, ou seja, qualquer usuário da www podia visualizá-lo. Em ambos e dali em diante, aboli a utilização de imagens provenientes da www.
Imagens da segunda série publicada no Flickr.

Quando a Yahoo adquiriu o Flickr e a companhia que o desenvolveu, a canadense Ludicorp, houve a transferência dos dados para servidores localizados em território nos Estados Unidos e, consequentemente, a sujeição dos mesmos às leis daquele país. A partir de meados de 2005, a aparente tolerância com relação à multiplicação de imagens autorais encontradas na www e, também, à abordagem da nudez, do erotismo e da pornografia começou a ser substituída por um sistema de vigilância que resultou na anulação de várias contas existentes. Ao mesmo tempo, surgiram entre os usuários do serviço variadas reações e discussões sobre o tema da censura que levaram à criação de grupos com nomes tais como “Against Censorship in Flickr” (“Contra a Censura no Flickr”) e similares. A implantação de um sistema de (auto)vigilância mais efetivo fez desaparecer inúmeras imagens diversamente consideradas como inadequadas e, por vezes, aparecer outras em que a idéia de inadequação era esteticamente questionada.

Enquanto ia se formando este novo contexto, iniciei um terceiro trabalho no Flickr, que consistia simplesmente em vestir os meus autorretratos, substituindo imagens anteriormente postadas e publicando novas. Em termos de procedimento, tratava-se de desenhar e pintar vestimentas sobre o meu corpo retratado nas fotografias digitais utilizando as ferramentas dos editores de imagens. Além das vestimentas (criadas para revestir as partes do corpo que poderiam indicar alguma inadequação), fui aos poucos inserindo naquelas fotografias elementos que compunham cenários, situações ou circustâncias. Estes elementos acrescentados aos autorretratos podem ser entendidos como substitutivos às tarjas pretas ou à pixelização comumente utilizados na publicação de imagens tidas como inadequadas. Tanto os resultados quanto o próprio procedimento empregado neste trabalho mantêm alguma proximidade com as antigas fotografias de casamento, entre outras, talvez ainda comuns em várias localidades do interior do Brasil, que eram retocadas manualmente em alguma etapa do processo fotográfico.
Imagens da terceira série publicada no Flickr.

Na medida em que ia postando estes novos trabalhos, comecei a receber mensagens de uns poucos contatos mais ou menos próximos que me perguntavam se eu poderia trabalhar seus próprios autorretratos, proposta que aceitei com bastante entusiasmo e me levou a solicitar a participação de amigos próximos fora do universo da www. Trabalhei vários dos autorretratos que me foram enviados e os publiquei no Flickr ao longo dos anos de 2006 e 2007. E, desde então, as três séries de trabalhos acima descritas encontram-se desativadas, embora as imagens produzidas tenham sido repostas no meu endereço no Flickr, agora reunidas sob o título de uma única série intitulada “Outros Retratos”.

Trabalhos em autorretratos de contatos e amigos do Flickr.

5.11.09

AIFONEPICS/LUCAS LENCI

A era dos pesados tripés, das câmeras enormes movidas a filmes e daquela quantidade enorme de acessórios, parece que está chegando ao fim. E quem nos anuncia estes novos tempos é Lucas Lenci. Munido de um telefone celular e nada mais, Lucas torna realidade o velho sonho de todo fotógrafo: lançar mão de sua câmera num gesto rápido como se ela fosse um simples e prático bloquinho de notas. Ou pedacinhos de papel onde anotamos tudo aquilo vimos e que não queremos ou podemos esquecer.

Lucas, entretanto, não se ilude simplesmente com as maravilhas tecnológicas que dia após dia chegam às mãos e aos olhos dos fotógrafos. Sabe muito bem que assimilá-las é algo natural e inevitável para os jovens de sua geração. Mas sabe também que isto não basta. Lucas tem consciência de que, para que as imagens registradas em seu bloco de notas eletrônico tenham algum valor e interesse, é necessário, sobretudo, saber ver e ter algo a dizer, condições essenciais na boa fotografia que, aos poucos, têm sido esquecidas em meio ao deslumbre diante do avanço rápido da tecnologia digital.

Para nos certificarmos do olhar certeiro de Lucas, basta observarmos suas fotografias que, em clara referência às imagens Polaróide no formato e na cor, compõem este “diário digital”. Sem a preocupação e postura clássicas do fotógrafo analógico pois não se troca mais filme, não se usa mais tripé, a empunhadura da “câmera” já é outra e entre outras coisas não há mais uma ocular por onde se lança o olhar, o nosso fotógrafo digital produziu mais de 1.000 imagens e, com rigor, selecionou 52 que considerou as mais expressivas. Vemos ali os jogos de luz desenhados pelos faróis dos automóveis que percorrem a cidade, a cena surpreendente composta por três ciclistas em plena avenida, o perfil de uma pessoa junto à janela de um avião e o desenho da arquitetura de um conjunto de escadas de um edifício modernista. Cenas que muitas vezes temos diante de nossos olhos indiferentes, mas que se tornam expressivas e luminosas quando filtradas pelo olhar de Lucas Lenci. São “anotações visuais, de olho nas coisas do dia a dia que me inspiravam” como ele mesmo diz.

No entanto, além da qualidade das imagens desta exposição, há aí uma outra possibilidade que Lucas nos anuncia. Com o avanço extraordinário da tecnologia digital, aproxima-se o dia em que as câmeras ou dispositivos fotográficos serão praticamente imperceptíveis. Poderemos registrar as imagens do mundo ao nosso redor num simples “piscar de olhos” que, incrivelmente, deixará de ser apenas uma força de expressão. O que diria Joseph Nicéphore Nièpce autor da primeira fotografia há quase 200 anos a respeito de tamanha revolução?

Cristiano Mascaro
 
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